Após anos de trabalho forçado, aos cavalos, sobra o abandono e os maus-tratos

Após anos de trabalho forçado, aos cavalos, sobra o abandono e os maus-tratos

Maus-tratos

Os dados trazidos pelo Instituto Assistencial de Bem-Estar Animal (Iabea) durante um protesto na Câmara de Vereadores de Santa Maria, no começo de março deste ano, jogaram luz para uma realidade que sempre existiu na cidade, mas que, pelo menos até o momento, permanecia nas sombras. Embora tenha havido uma tentativa de controle das carroças, nos anos 2000, a problemática que envolve o uso de tração animal na coleta de materiais recicláveis no município nunca foi enfrentada pelo poder público de forma eficaz. No último mês, o movimento mudou. O Legislativo formou uma comissão para tratar do assunto e, na última semana, a prefeitura começou a cadastrar catadores e carroceiros, antecipando medida que começaria em maio.

Na última reportagem da série que aborda o tema, o Diário retoma o assunto que foi o estopim para que a discussão voltasse à tona: os maus-tratos aos animais.

Não se pode dizer que todo o carroceiro maltrata o seu cavalo. Mas é fato que 90% dos cavalos que chegam ao Hospital Veterinário da Universidade Federal de Santa Maria são vítimas de maus-tratos causados direta ou indiretamente por carroceiros.

Dados do Iabea revelam a triste estatística da falta de cuidados com esses animais. O estudo estima que existem entre 2,8 mil a 3 mil carroças circulando pela cidade. O mesmo estudo apontou que, até janeiro de 2017, Santa Maria tinha cerca de dois mil cavalos em situação de vulnerabilidade, maltratados e desnutridos. Agora, a prefeitura quer saber onde estão e quem são esses cavalos e quem são os donos deles.

Não raro esses bichos são vistos atrelados à carroças andando pelas ruas ou amarrados em terrenos baldios na periferia e às margens das rodovias onde encontram algum alimento. Difícil é mensurar o grau de debilidade desses animais que, na maioria das vezes, nunca passaram por uma avaliação veterinária.

Na Avenida Dom Ivo Lorscheiter, no Bairro Passo D’Areia, onde uma equipe da Secretaria de Meio Ambiente começou o cadastro, a reportagem conversou com uma jovem de 28 anos, que há nove usa a carroça para catar materiais recicláveis. A história é a mesma das demais famílias que encontramos durante a série de matérias publicadas no jornal. Ela diz que tentou emprego formal, não conseguiu devido à baixa escolaridade (só cursou até o 5º ano) e encontrou na coleta de resíduos a única chance de sustento para ela, o companheiro e os três filhos, de 9, 7 e 5 anos.

_ O serviço está muito difícil. A gente não consegue nada porque não tem estudo. Comecei na reciclagem e estou até aparecer coisa melhor _ relatou a jovem, garantindo que trabalharia em uma cooperativa de recicladores, se tivesse a oportunidade.

Perto do barraco de madeira, ainda atrelado à carroça estava Tordilho, um cavalo de pelagem clara, adquirido de um vizinho por R$ 1,5 mil há cerca de dois anos. Ele foi comprado depois que o cavalo antigo foi sacrificado. Segundo ela, o bicho teria entrado na pequena casa, chutado a pia e cortado um tendão. Após algumas horas de sofrimento, os próprios donos mataram o animal que foi enterrado em um campo nas redondezas.

Ferimentos como o relatado pela catadora, ditos ‘acidentes domésticos’, são os casos mais frequentes no Hospital Veterinário. Segundo o médico veterinário e professor Marcelo Soares, responsável pelo Centro de Reabilitação Equina, a maioria dos cavalos encaminhados pelas polícias ou resgatados pela própria equipe são vítimas de machucados causados por acidentes de trânsito, açoite ou ferimentos provocados enquanto estão amarrados em arames, cordas e galhos e abandono. Para o professor, tudo isso configura maus-tratos.

_ Infelizmente, o que vemos é um índice de abandono muito elevado. Animais que chegam em situação muito comprometida, machucados, cortados e que foram deixados nessa situação porque não servem mais _ explica o veterinário.
De acordo com a integrante da ONG Cavalos Aposentados e do Iabea, Elyeth Viana Bueno, a crueldade ocorre de várias formas:

_ Tanto em relação à carga, quanto à exaustiva jornada de trabalho, sem descanso, sem alimentação e sem hidratação. E ainda tem o açoite.

Ela pede que a comunidade seja parceira e denuncie os casos de maus-tratos ao Batalhão Ambiental da Brigada Militar no (55) 3221 7372.

Um centro para reabilitar os equinos

A partir de meados de 2016, alguns donos de animais também passaram a procurar o local em busca de tratamento para seus animais.

O projeto de extensão do Centro de Reabilitação Equina do Hospital Veterinário Universitário começou em março de 2015. À época, os equinos encaminhados ao local chegavam em estado terminal. Em muitos casos, a eutanásia era a única alternativa para cessar a dor do animal. Esse cenário mudou nos últimos anos. Os órgãos de segurança _ Brigada Militar, Polícia Rodoviária Federal (PRF) e prefeitura, por meio da Guarda Municipal _ passaram levar ao hospital cavalos que tinham recuperação, ainda que demorada e complexa.

_ Trabalhamos com cavalos que precisam de assistência e que servem para o ensino dos alunos. Recebemos esses animais e fazemos a cura deles. Os trazidos por força institucional (polícias e prefeitura) entram mediante Boletim de Ocorrência. Não temos animais sem documento de origem e todos recebem um chip de identificação. Eles ficam sob a guarda do projeto e, depois de recuperados, são encaminhados à adoção _ explica o professor Marcelo Soares, responsável pelo Centro.

Atualmente são cerca de 10 estudantes que estão entre o segundo e o décimo semestres do curso de Medicina Veterinária da UFSM. Eles fazem o atendimento, o cadastro, os cuidados básicos dos bichos como curativos. Mas quando os animais precisam de procedimentos específicos como cirurgias, anestesias e exames por imagem e laboratoriais, por exemplo, o Centro recorre aos profissionais que atuam nessas áreas no hospital.

_ Somos o PA dos cavalos _ comentou Soares.

O médico veterinário Alexandre Caetano que trabalha na Secretaria de Meio Ambiente sabe exatamente o número de eutanásias que já teve fazer: 56. Segundo ele, a medida extrema é tomada quando os ferimentos decorrentes de acidentes ou de maus-tratos são tão graves que não há chance de recuperação do animal. A morte é provocada por meio de uma injeção que causa parada cardiorrespiratória.

_ Na semana passada, atendemos a um potranco com fratura exposta na perna. Disseram que foi um tiro, mas não foi. Para mim, montaram e ginetearam o animal em dois ou três e quebraram a perna dele. Cheguei lá e não tinha o que fazer _ relatou Caetano.
A denúncia do caso foi feita pela dona do animal ao Instituto Assistencial de Bem-Estar Animal (Iabea) que acionou o veterinário.

Campanha arrecada ração para os resgatados

Como, na maior parte dos casos, os donos dos cavalos maltratados ou abandonados que são levados ao Centro de Reabilitação Equina do Hospital Veterinário não são identificados ou não se responsabilizam pelos animais, o Instituto Assistencial de Bem-Estar Animal e a Central de Bem-Estar Animal da prefeitura lançaram uma campanha de arrecadação de ração para os cavalos recolhidos. Para participar, a pessoa pode comprar a ração em qualquer agropecuária e ligar para o telefone (55) 3921 7150, informando o endereço do estabelecimento, que a equipe buscará a doação.

A ação não aceita valor em dinheiro. Não que ele também não seja necessário para o tratamento dos animais. O trabalho do Centro é custeado pela UFSM _ atendimento, curativos, limpeza, medicamentos do bloco cirúrgico, pessoal. Segundo o professor, o cavalo “paga o seu atendimento prestando-se à participação nas aulas e permitindo-se ser atendido”. Mas o hospital não pode cobrir os gastos com medicamentos como anestésicos, cedantes e antibióticos para o tratamento. Por isso, esses materiais são cobrados dos donos de animais.
Em muitos casos, quando os proprietários são carroceiros, os donos preferem doar o animal para o hospital a pagarem as despesas.

Histórias de sofrimento e recuperação

Cada animal que chega ao Centro de Reabilitação Equina do Hospital Veterinário tem uma história ou de abandono ou de maus-tratos ou de ambos. Entre as tantas, o professor contou a do Scarface que ocupa uma das cinco baias do local. O apelido foi dado pela equipe em referência aos ferimentos na face que o cavalo teve depois de um acidente de trânsito. Uma dupla de carroceiros, supostamente embriagada, descia a BR-158, que liga Santa Maria a Itaara, quando perdeu o controle da carroça e acabou colidindo com uma carreta.

_ Foi um milagre nem as pessoas nem o cavalo ter morrido. Mas o animal ficou com o rosto deformado _ disse o professor Marcelo Soares, responsável pelo Centro.

Outros dois cavalos em tratamento no lugar tiveram a pata ou perna machucadas. Um deles foi levado pelo dono, depois de ter sido notificado pela Guarda Municipal. O outro, Severino, foi encaminhado pela Brigada Militar há cerca de um mês. Ele havia perdido todo o tecido em parta de uma das pernas. O dono nunca apareceu e ela será encaminhada para adoção. Na tarde de quinta-feira, ambos pastavam em um campo nos fundos do prédio do hospital veterinário.

Uma história que começou triste, mas já teve um final feliz para o animal foi a de uma égua que pertencia a uma catadora. Ao ir fazer a coleta, a mulher amarrava a égua às lixeiras e o animal se acostumou a remexer o lixo para comer restos de alimentos e de frutas, o que encontrasse. Conforme o professor, o Ministério Público retirou a égua da dona e, por meio da Guarda Municipal, encaminhou ao hospital. Depois de recuperada, ela foi adotada. A atual proprietária, seguidamente, manda fotos à equipe do projeto.

Sem entrar no mérito de força de tração ou resistência, o professor acredita que os cavalos não devem ser usados nesse tipo de atividade:

_ Vivemos em centros conturbados. Então, não é que (o cavalo) não tenha esse perfil ou não possa fazer, ele não deve. Principalmente, no Rio Grande do Sul onde o cavalo tem uma conotação folclórica, bairrista do gaúcho. Acho que este é o espaço do cavalo. Quando usa o animal para esse tipo de serviço (reciclagem), acaba infringindo leis e prejudicando o animal porque ele não recebe a quantidade de alimento necessária, as vacinas e o tratamento. É tratado como objeto. Nosso objetivo é a assistência ao animal. Ocorre que 90% dos que chegam para nós com muita machucadura são de carroceiros. Acho que já existe a possibilidade para que esse mesmo trabalho possa ser viabilizado por outro meio.

Para o veterinário é preciso afastar os cavalos das situações de risco da área urbana, do sobreuso, do sobrepeso, do uso inadequado ao que a própria espécie se propõe.

_ O cavalo é forte, é para tração, é para montaria, mas tem seu limite. Ele precisa do seu descanso, da sua água limpa, do seu pasto verde, da sua hora de sono _ lembra o veterinário.

Depois do tratamento, um novo lar

As pessoas que recebem os animais recuperados são os chamados fiéis depositários, cujos nomes estão listados junto à Guarda Municipal.

O médico veterinário Alexandre Caetano que integra a ONG Cavalos Aposentados e, atualmente, também a equipe da Secretaria de Meio Ambiente, lembra de uma vez em que foi acionado por uma prima. Ao deparar com um cavalo caído ao chão, no centro da cidade, a moça abraçou o bicho e não soltou até a chegada do primo veterinário e da polícia. O bicho foi avaliado, recolhido, tratado e encaminhado a um fiel depositário na região, onde, atualmente, vive muito bem.
Em outra situação, Caetano levou um potrinho a um morador de um distrito.

_ Cavalo estava fraquinho, fraquinho. Quando ele entrou no potreiro, o dono do campo veio em minha direção, me abraçou e agradeceu. Me convidou para voltar lá em 60 dias para ver como estaria o cavalo. Eu pretendo ir. Ele chorava de felicidade. São pessoas que têm amor pelos bichos _ disse o veterinário.

Aposta de solução já tem projeto

Foto: Charles Guerra

O cadastramento feito pela Secretaria de Meio Ambiente vai gerar um banco de dados oficial do município, que deverá ser usado para nortear ações futuras. E elas deverão necessariamente estar associadas ao tratamento que a cidade dá à questão dos resíduos recicláveis. Pelo menos, é o que esperam protetores dos animais, entidades, representantes dos carroceiros e a população em geral.

Entre o discurso inflamado dos protetores dos bichos e o comedido dos legisladores, a cidade precisa buscar uma solução que contemple o bem-estar dos cavalos e a sobrevivência digna das pessoas.

A prefeitura diz que o Centro de Bem-Estar Animal, mesmo sem estrutura física, já está funcionando _ uma das ações é o cadastramento dos catadores, carroceiros e animais _ e tem projeto pronto para criação de um Centro de Triagem e Compostagem. Além disso, está em elaboração o projeto do castramóvel. Faltam recursos.

Em paralelo, o Instituto Assistencial de Bem-Estar Animal (Iabea), que reúne ONGs de proteção a grandes e pequenos animais, mas também profissionais de diversas outras áreas da saúde da assistência, pretende encaminhar projetos ao Banco Mundial. Um deles será para a compra de dois veículos, um de resgate de animais e outro com função educativa. Esse segundo, deve servir para levar os profissionais ate as escolas onde o Iabea pretende desenvolver ações, assim como junto aos donos de animais, sobre posse responsável e de como tratar os bichos. O outro projeto diz respeito à descentralização do lixo sólido.

_ O carroceiro são consequência do problema que é a questão do lixo. A nossa ideia é descentralizar o lixo, com oito pontos na periferia, impedindo que as carroças vão para o Centro. Depois fazer um trabalho junto à pastoral e às escolas, enquanto os pais trabalham na separação do lixo _ opinou Elyeth Viana Bueno, da ONG Cavalos Aposentados que faz parte do Ibea.

Outra medida é a substituição dos atuais contêineres por outros que só permitam a entrada de lixo e não a retirada pelos catadores. Mas, Elyeth reforça a opinião como protetora de retirar as carroças das ruas:

_ A minha opinião é de proibir (o uso de tração animal). Mas, enquanto isso não ocorre, tem que cadastrar os carroceiros, chipar os cavalos e emplacar as carroças.

Fonte: Diario de Santa Maria

Reportagem: Lizie Antonello

Imagens:Lucas Amorelli

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