Primeiro elefantes, depois rinocerontes, agora burros estão sob ameaça

Primeiro elefantes, depois rinocerontes, agora burros estão sob ameaça

Ashley Ness estava rastreando traficantes no interior sul-africano no começo deste ano quando ela se deparou com uma visão inesperada: centenas de peles de burros penduradas em galhos de árvores.

As peles estavam em uma propriedade alugada para imigrantes chineses, disse Ness, uma inspetora do Highveld Horse Care, um grupo de direitos dos animais sem fins lucrativos. Tratores, contêineres de navio e outros detritos estavam espalhados pelo local. Dentro de um dos contêineres, Ness e os oficiais de polícia encontraram pelo menos 3.000 peles de burros empilhadas.

“Era um odor horrível”, Ness diz. “O contêiner estava lotado, lotado, lotado até o teto com as peles”.

Enquanto isso, o valor de mercado das peles na China foi estimado em US$ 1,58 milhão.

00000000000000000000000000000000000000000000Um agente da NSPCA revisa um vídeo de múltiplas peles de burros encontradas em um matadouro ilegal. (Imagem: Zaheer Cassim)

A demanda chinesa alimentou um crescente mercado subterrâneo de peles de burros africanos nos últimos anos, de acordo com um relatório feito pelo ONG britânica, The Donkey Sanctuary. Uma pele de burro que dois anos atrás era vendida por US$ 40 na África do Sul agora custa cerca de US$ 140, disse o grupo. E uma vez que esta chegue à China, pode ser vendida por centenas a mais.

“Dentro dos dois últimos anos houve um aumento do comércio global em larga escala de peles de burros”, citou o relatório do grupo, estimando que o comércio mundial total foi cerca de 1,8 milhão de peles por ano.

As peles são o ingrediente principal na fabricação do tradicional remédio chinês chamado ejiao (uma substância gelatinosa algumas vezes chamada de cola de pele de jumento) que é usado para tratar anemia, insônia e sangramento menstrual excessivo. A crescente demanda pela droga dentro da classe média chinesa aumentou a demanda pelas peles ao longo de rotas subterrâneas de comércio que os traficantes de animais usam através da Ásia e África.

00000000000000000000000000000000000000000000Ejiao, gelatina de pele de burro. (Imagem: Wikipedia)

“Estes são os mesmos grupos envolvidos em abalone, chifre de rinoceronte e osso de leão”, disse Ness.

No começo deste ano, a Sociedade Nacional de Prevenção à Crueldade aos Animais (NSPCA) da África do Sul divulgou um relatório ressaltando a brutalidade no comércio ilegal de peles de burros.

“Burros estão sendo perseguidos ou roubados, então são transportados e abatidos de forma desumana pelas suas peles”, disse a sociedade. “As evidências indicam que o método de abate é horrível; indicações em carcaças mostraram um buraco atrás da cabeça. Isso é, os burros pareciam ter sido imobilizados com um instrumento, então esfolados, provavelmente enquanto ainda conscientes. A morte deve ter sido lenta e excruciantemente dolorosa para estes animais”.

De acordo com o Under the Skin, um santuário britânico de burros, a demanda atual por ejiao requer na faixa de 10 milhões de peles de burros por ano. Estima-se que 44 milhões de burros vivem no planeta atualmente, sugerindo que a espécie poderia ser extinta em cinco anos se os traficantes conseguissem satisfazer a demanda.

000000000000000000000000000000000000000000Ashley Ness, da entidade Highveld Horse Care Unit. (Imagem: Zaheer Cassim)

As autoridades da agricultura chinesa reportaram que o número de burros na China caiu de em torno de 11 milhões em 1990 para estimados 6 milhões em 2014, mesmo os fazendeiros chineses tentando suprir a demanda local.

“Basicamente, há uma demanda tão grande pelas companhias chinesas que fazem essa gelatina que estamos vendo as populações de burros sendo dizimadas globalmente”, disse Jesse Christelis, dono do Donkeys and Dwarf Goats SA, um criador de burros anões que são vendidos como animais de estimação em Johannesburgo.

Christelis está promovendo produtos derivados do leite de burras, como sabonete e maquiagem, para que as pessoas possam ver o valor nos animais além de suas peles.

“Eu acho que não damos o valor necessário aos burros”, ele diz. “Um mundo sem burros significaria que muitas casas em áreas rurais ficariam sem água. Eles não teriam um animal para carregar suas crianças para a escola. Muitas pessoas estão alugando seus burros para trabalho na região, o que também está criando uma renda. O comércio de pele está prejudicando estas famílias e tirando seu sustento”.

Burquina Faso, Mali, Níger, Senegal e Paquistão já proibiram o comércio de burros.

Os órgãos oficiais da África do Sul já expressaram seu interesse no comércio de burros, entretanto. Atualmente, três matadouros no país processam carne e pele de burros. Mas eles atendem à demanda local. O país não possui um acordo de comércio com a China para a exportação das peles.

“Estão acontecendo muitas atrocidades com os burros”, diz Langa Madyidi, uma funcionária que estuda o comércio de burros no departamento de agricultura da África do Sul. “Nossa abordagem é contra-atacar isto. Há muito pouco conhecimento sobre os burros assim como sobre aspectos regulatórios da exportação desses animais”.

Madyidi se sensibilizou com aqueles que disseram que o comércio está dizimando as populações de burros ao redor do mundo. Ao solucionar o problema, ela viu uma oportunidade para criar empregos. “Se alguém quer abrir um abatedouro (para exportar peles), primeiro precisam focar na produção dos animais”, ela diz.

Ness, que monitora de perto a matança dos burros, está cética de que a África do Sul tenha capacidade para atender à demanda chinesa legalmente. Mas se isso acontecer, ela gostaria de garantir que o processo fosse humano.

“Se for legalizar, que o bem-estar seja o principal”, ela diz. “Deverá haver pessoas permanentemente empregadas no local que irão monitorar se as coisas são feitas com transparência”.

Por Zaheer Cassim / Tradução de Alice Wehrle Gomide

Fonte: PRI  e Olhar Animal

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