Okja – uma verdade incômoda sobre indústria, ativismo e ética

Okja – uma verdade incômoda sobre indústria, ativismo e ética

 

Depois que o sul-coreano Bong Joon-ho, celebrado pelo humor seco e visual deslumbrante de seus trabalhos, estreou seu novo filme em Cannes “Okja”, sobre uma garota determinada e uma porca gigante em perigo, os espectadores aplaudiram em pé por longos minutos.

Em seguida, quando o logotipo da Netflix surgiu na tela, eles vaiaram. Para ressentimento de muitos, “Okja” não será exibido nos cinema franceses, devido às regras restritivas do país quanto à exibição de filmes.

Bong disse mais tarde que compreendia a raiva dos que vaiaram. Mas se não fosse a Netflix, disse ele em uma entrevista em Manhattan, não teria sido possível produzir “Okja” da maneira como o filme foi concebido.

Escrito por Bong e Jon Ronson, o filme, estrelado por Matilda Swinton, Jake Gyllenhaal e Paul Dano, fala sobre a pré-adolescente Mija, órfã que vive com o avô em uma verdejante colina da Coreia do Sul e tem como melhor amiga a porca Okja, uma gigante de seis toneladas produzida por engenharia genética.

A empresa que criou “Okja”, e centenas de outros porcos semelhantes, quer a criatura de volta e planeja usá-la em um golpe de publicidade, enfeitando de cores ecológicas uma campanha para a venda de carne processada.

Na trama há o sequestro da porca, a busca desesperada de Mija pelos criminosos, um grupo desastrado de militantes, uma vilã corporativa insegura (interpretada, com precisão gélida, por Swinton) e uma incursão à repelente mecânica do processamento de animais em escala industrial.

No caso de “Okja”, conta Bong, os estúdios a quem ele propôs a história pareciam interessados pelo menos até que ele falasse sobre a última porção da história.

“Para os estúdios, a pergunta recorrente era se eu pretendia manter a cena do matadouro”, lembra. “Eles viam uma menina e belos animais. Queriam alguma coisa do tipo Disney. Mas a Netflix me deu 100% de liberdade para fazer o que eu quisesse”. A produtora de Brad Pitt, Plan B, também está no projeto.

“Okja” estreou na quarta (28) em apenas três salas nos Estados Unidos, no mesmo dia em que foi disponibilizado na Netflix. Esse tipo de lançamento é proibido na França, cuja lei determina que filmes só podem ser veiculados on-line três anos depois de sua estreia no cinema. É uma regra que os executivos da Netflix não se dispõem a engolir. Enquanto isso, na Coreia do Sul, onde Bong é um astro, as três maiores cadeias de cinemas ameaçaram boicotar o filme a menos que a Netflix retarde seu lançamento no país.

O diretor lamenta, mas afirma que hoje em dia a exibição no cinema responde por uma porção muito pequena da vida útil de uma produção. E a questão do controle criativo era importante. “O Expresso do Amanhã”, suspense que ele dirigiu em 2014, mal conseguiu escapar de cortes. A distribuidora nos EUA, a Weinstein & Co., queria reduzi-lo em 20 minutos e só mudou de ideia quando as audiências responderam melhor à versão de Bong. “Os novos provedores são uma oportunidade nova e refrescante”.

A ideia de “Okja” surgiu quando a imagem de um animal grande e desajeitado, com uma expressão triste, surgiu na cabeça do diretor. Ele tentou imaginar o motivo da melancolia do animal e refletiu sobre a predileção um tanto arbitrária da humanidade por definir alguns animais como comida e outros como companheiros.

Okja é tecnicamente uma porca, mas tem uma linhagem comum com hipopótamos, elefantes e vacas-marinhas, as gentis criaturas que inspiraram seu focinho, não muito porcino.
Embora haja cenas no matadouro e sofrimento em profusão, boa parte do filme é leve, e o humor seco de Bong está sempre visível.

A trama segue a linha socialmente consciente que caracteriza os trabalhos anteriores de Bong. “O Hospedeiro”, de 2007, mostra um rio poluído que gera um monstro. “O Expresso do Amanhã”, baseado em uma romance gráfico, trata dos últimos sobreviventes de uma experiência catastrófica sobre a mudança no clima.

Mas Bong diz que, com “Okja” a intenção não era causar polêmica sobre direitos dos animais. “O principal propósito do filme é ser bonito”.

Como pesquisa para o filme, Bong visitou um matadouro no Colorado, e o cheiro que ele sentiu já no estacionamento a centenas de metros do abatedouro em si, uma mistura de sangue, excremento e medo animal, quase o derrubou.

Ele observou as vacas que esperavam para entrar e assistiu ao abate do lado de dentro, com cada pedaço de seus corpos, incluindo as fezes Ъtudo menos os gemidosºÐ reaproveitado de alguma maneira.

“Há momentos em que desejo infligir certa dor psicológica porque, na realidade, é isso que os animais sentem.”

Mas o filme não bastou para fazer da equipe um grupo de vegetarianos. An Seo Hyun, que interpreta Mija, diz que abandonou a carne, mas só por algum tempo.

Dano afirmou que provavelmente não vai deixar de comer carne, mas que vai procurar se informar mais sobre sua origem. Swinton diz que é carnívora de modo infrequente, e que só come a carne de animais caçados perto de sua casa, nas Highlands escocesas. “O que, admito, é uma posição muito luxuosa.”

Para Swinton, Bong conseguiu fazer um filme muito atraente sobre algo em que as pessoas preferem não pensar.

“O tipo de amnésia coletiva que somos todos encorajados a manter, que envolve não estarmos cientes do que colocamos nos nossos corpos, ou da maneira que tratamos uns aos outros, ou da maneira que estamos tratando o planeta esse é o tema”, pondera Swinton. “A ideia de caminhar como sonâmbulos rumo ao consumismo.”

Quanto a Bong, a visita ao matadouro no Colorado o tornou vegano por dois meses. “O problema”, diz ele, “é que a Coreia do Sul é o paraíso do churrasco”.

Tradução de Paulo Migliacci
Fonte: Folha

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